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Carolina Ó i Ó Ai

Carolina Ó i Ó Ai

Desemprego - Um.

O que mais me custou no desemprego foi a culpa que senti nas primeiras semanas. Ao contrário de muitas pessoas que não gostam do que fazem, eu sentia-me muito bem no meu trabalho. Não era na área em que me formei, área essa que está cheia de pessoas a lutar por uma vaga, mas numa área que me dava prazer na mesma e me fazia sentir bem.

Quando me chamaram e disseram que não iam renovar o contrato foi um dos dias mais tristes de que me lembro e fiquei sem conseguir perceber as razões daquela decisão.

No entanto, tentei com todas as forças não ir abaixo. A primeira semana em casa usei-a como férias e fiz aquilo que não fazia desde há alguns meses. Dormir até mais tarde, passar uma tarde no sofá a ver televisão, não me preocupar em deitar cedo ao domingo à noite, etc. O pior foi quando a sensação de férias passou e me senti com tempo que não sabia usar.

Assim, decidi dedicar-me totalmente à casa na segunda semana. Limpei todos os vidros, separei roupa, cataloguei produtos na dispensa, limpei carpetes, substituí certas coisas e dei o litro colocando ali toda a minha dedicação. Estava focada e via o tratamento da casa como o meu trabalho principal, com horas de levantar, deitar, almoçar e por aí adiante.

No entanto, uma casa com duas pessoas nunca pode estar muito porca e a minha não foi excepção. O chão brilhava, os armários estavam todos organizados e tinha arranjado espaço para as prendas de casamento de há dois anos. Assim, na terceira semana vi-me sem nada para fazer. Nessa altura a minha mãe lembrou-me que quando eu era adolescente gostava de artesanato e tinha o meu quarto cheio de obras de arte para oferecer. Recordei-a que era tralha reciclada que não servia para nada mas, como a cavalo dado não se olha o dente, peguei na ideia e dediquei-me ao croché.

Nessa semana passei muito tempo sentada no sofá a fazer naperons, cortinas, mantinhas de inverno e até umas pantufas. No entanto, como tudo o que é demasiado cansa cheguei ao domingo sem poder ver agulhas, linhas, novelos e toalhinhas e decidi fazer boicote às artes. 

A quarta semana foi a pior. O Miguel, meu marido, sai de casa de manhã para trabalhar e chega à noite. Durante as três semanas anteriores eu estivera ocupada mas agora começava aos poucos a cair na inércia. Um dos dias, talvez a terça feira, dormi até às quatro da tarde depois de passar a noite toda a ver um programa de tv no canal AE onde pessoas com doenças mentais acumulam tralha em casa, como fraldas, caixas, livros, pratos sujos e garrafas com urina empilhadas. Vi todos os que a box tinha disponíveis e no dia a seguir acordei deprimida, pelo que me deixei continuar na cama e dormir até muito depois da hora de almoço.

A culpa dominava-me. Como é que era possível que eu não tivesse a capacidade de aguentar um trabalho básico, que não exigia capacidades mentais? Como é que podia enviar currículos para outras coisas? Com trinta e dois anos não era muito velha para recomeçar?

Comecei a dormir de dia e ver televisão de noite. Não me sentia mal por ver tv de noite porque é suposto as pessoas descontraírem à noite. E estando a dormir durante o dia não tinha como me sentir culpada por não estar a trabalhar porque dormir é inconsciência e se não for nos sonhos, não nos podemos sentir mal por não fazer o que é suposto.

Na sexta feira dessa semana acordei às quatro da tarde. Doíam-me as costas e sentia o corpo todo moído. Tinha passado a semana entre sofá e a cama. Fizera as tarefas domésticas com rapidez e a casa estava um bocado desleixada. Era hora do lanche e eu não tinha tomado o pequeno almoço. Estava suada e a precisar de um banho. Entrei na casa de banho, olhei-me ao espelho e disse-me que a não ser que quisesse acabar com uma doença mental, que me obrigava a acumular papel higiénico nas paredes, tinha de fazer qualquer coisa pelo que fui fazer sopa. Tirei uma fotografia e tudo. Depois do banho tomado, quarto arrumado e roupa posta a lavar fui fazer sopa a que chamo sopa milagrosa. 

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